Entre os dias 18 e 22 de novembro, o Centro Feminista 8 de Março (CF8) esteve presente na 10ª edição do Encontro Nacional da Articulação Semiárido Brasileiro (EnconASA), realizado nos estados de Alagoas e Sergipe. Com o tema “Por Justiça Socioambiental e Democracia Participativa”, o evento celebrou o retorno ao coração do Semiárido, reunindo agricultoras, agricultores, técnicas e técnicos, comunicadores, jovens, diversas lideranças comunitárias e movimentos sociais. Organizado pela ASA Brasil, o EnconASA foi uma oportunidade para refletir sobre a diversidade social, cultural e ambiental das regiões semiáridas do Brasil.
O evento histórico aconteceu às margens do Rio São Francisco e contou com a participação da Delegação do Rio Grande do Norte, composta por 29 pessoas, incluindo agricultoras, agricultores, técnicos e técnicas. Além de ser um espaço de aprendizado e celebração dos 10 anos, o EnconASA também se configurou como um momento importante para discutir o fortalecimento dos programas da ASA Brasil. Ao longo de um robusto processo de preparação territorial no Rio Grande do Norte, foram trabalhados temas como saneamento rural, sementes crioulas, P1MC e P1+2 e energias renováveis adequadas às demandas do semiárido. Essas propostas, juntamente com as contribuições de outros estados do Semiárido, foram apresentadas à coordenação da ASA Brasil no encontro.
O protagonismo das mulheres foi destaque do primeiro dia, com a realização da plenária “Igualdade de Gênero e Justiça Socioambiental”, que contou com grande presença e foi protagonizada por mulheres agricultoras e técnicas. Esse espaço de auto-organização e preparação para a semana de atividades gerou discussões sobre a importância da igualdade de gênero e os desafios socioambientais enfrentados pelas mulheres do Semiárido.
O CF8 teve um papel importante durante o encontro com a participação de Ivi Aliana, coordenadora estadual da ASA Potiguar e Gaby Sousa, coordenadora do P1+2. Dentre as contribuições, destaca-se a mediação da oficina “Quintais Produtivos”, que discutiu como os quintais podem ser uma forma de resistência, implementação de políticas públicas e auto-organização das mulheres rurais. O debate reforçou o compromisso do CF8 com a organização comunitária e regional das mulheres, destacando o papel essencial dos quintais produtivos na autonomia e segurança alimentar das mulheres do campo.
A oficina proporcionou um resgate sobre o conceito de “quintal produtivo”, explorando a diversidade de elementos presentes nesse espaço, como plantas medicinais, fruteiras, pocilga, galinheiro, hortaliças, como tantos outros. Também foram abordadas tecnologias sociais, como as cisternas de primeira e segunda água, biodigestores, fogões agroecológicos e reuso de águas. A agricultora Fafá, do Ceará, compartilhou sua experiência ao afirmar: “Meu quintal começou pela necessidade de trabalhar… Eu me sinto bem no meu quintal, tenho uma diversidade de plantas, não tomo remédio de farmácia, uso as plantas e me curo lá.”
Geane, agricultora de Patos/PB, também destacou o valor do quintal: “Os quintais são psicólogos, mostram que podemos lutar e nos curar no meio das nossas plantas. Para nós, mulheres do campo, o quintal é tudo. O resto da casa vem depois.” Ivi Aliana complementou, enfatizando a importância desses espaços para a autonomia das mulheres: “Os quintais não são espaços isolados. Eles se conectam com a comunidade, com os movimentos, com a organização social e com a auto-organização das mulheres.”
Durante a oficina, as participantes também discutiram a necessidade de maquinários para melhorar as condições de produção e reduzir o tempo de trabalho. A busca por mais ferramentas tecnológicas para fortalecer a produção e a autonomia das mulheres do campo ficou evidente. “As máquinas vão nos ajudar na agricultura. O tempo que gastamos com a enxada poderia ser usado em outras atividades, incentivando as jovens a permanecer no campo”, afirmaram as participantes.
Em 2024, ano que marca os 25 anos da ASA, novos programas foram anunciados durante o evento, incluindo o Programa de Saneamento Rural com Reúso de Águas e o programa Um Milhão de Tetos Solares. O governo federal através do MDS, também anunciou 500 milhões para um novo edital do programa cisternas, consolidando ainda mais as políticas públicas para convivência com o semiárido.
O X ENCONASA, foi finalizado com a leitura de carta política onde “A ASA, em seus 25 anos, mantém o compromisso de construir um Semiárido justo, sustentável e democrático. Convidamos a sociedade civil organizada e o governo federal a unir forças por um futuro digno para as atuais e próximas gerações”.