Netinha: as lutas e os sabores da terra

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Antônia Elenir Calixto, Netinha, moradora do Sítio Barra do Tigre, Tabuleiro Grande, tem 45 anos de sorriso e simpatia. Nascida no Sítio Serrinha, Portalegre (RN), filha de Alcídia Simplice e Francisco Calixto, conhecido como Chico Preto, descendente de quilombola, viveu sua infância e adolescência com mais seis irmãos trabalhando na roça. “Chico Preto, num bote suas meninas pra trabalhar desse jeito na roça, não, que elas vão casar cedo!”, o povo dizia que as moças queriam fugir do roçado. Netinha se casou aos 16 anos: “Mas não foi por causa do trabalho na roça, não. Porque eu sempre gostei e nunca parei de cuidar de roça”, defende.

Quando casou, Netinha se mudou com o seu marido, Antônio Genilson Delmiro da Silva, que trabalha como vaqueiro desde então, para o Sítio Tigre, Tabuleiro Grande (RN). Os filhos vieram logo. Hoje, Erivaldo tem 27, Ivonete, 26 e Ivoneide, 25 anos, cada qual com suas profissões na cidade. Ivonete e Ivoneide trabalham no banco e na padaria, respectivamente. “Erivaldo é técnico de enfermagem e capoeirista”, a mãe fala toda orgulhosa porque o filho preserva e dissemina a cultura de sua descendência. “Ele dá aulas de capoeira em tudo quanto é cidade vizinha daqui”.

Enquanto os filhos eram pequenos, Netinha se dedicou no cuidado deles. Mas à medida que iam crescendo, ela e o marido tratavam de arranjar terra pra plantar e ajudar a colocar comida dentro de casa. Do Sítio Tigre, onde viveram mais de 5 anos, mudaram para o Sítio Currais , em Itaú (RN), depois, Sítio Telha e atualmente, Barra do Tigre, ambos em Tabuleiro. Sempre roçando.

Netinha lamenta o fato de não ter sua própria terra: “Por a gente não ter terra mesmo, a gente fica sem segurança, né? Planta uma coisa aqui e de repente tem que sair e deixar tudo pra trás e isso é triste”. Desabafa que sempre lutou pra ter uma terra e, mesmo com todas as mudanças, abandono dos roçados, nunca desanimou. Pra ajudar na renda de casa, já fez varanda (renda nordestina), já foi fotógrafa, pescadora, costureira e há mais de dez anos é a doceira mais conhecida de Tabuleiro e região.

Doce de leite, de côco, de goiaba, espécie com gergelim, bolos de todos os tipos. Netinha coloca tudo na sua motinha e basta dar duas voltas na cidade pra acabar tudinho: “As vezes eu pego encomendas pra Mossoró, Portalegre, pra festas  e até vendo pras escolas”. Fala orgulhosa de ser cadastrada no PNAE e fornecer sua produção de macaxeira, frutas, galinhas, doces e bolos.

As vendas pelo PNAE vieram através da assistência do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Tabuleiro Grande: “Sônia foi quem encaminhou os papeis e hoje minha produção também vai pra merenda escolar”.

Faz tempo que eu tô morando aqui no Sítio Barra do Tigre e espero só ter que sair quando for pro meu pedaço de terra. “terrinha pequena, só pra plantar meus pés de côco, mamão, goiaba e limão pra fazer meus doces, milho e feijão, uma hortinha”.

O povo do semiárido luta até o fim não para acabar com a seca, mas para conviver com ela e, para tal, é preciso acabar com a cerca. É possível uma convivência cheia de prosperidade quando se tem oportunidade e se cultiva a diversidade de culturas e com autonomia de mulheres e homens. Netinha é exemplo de quem não desanima e segue com as lutas e os sabores da terra.

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