Trapiá e Queimadas: arte, organização das mulheres e o direito sobre as carnaubeiras

Trapiá é uma árvore nativa da caatinga nordestina. O trapiazeiro tem uma folhagem muito densa e consegue manter-se verde mesmo em condições críticas de falta d’água. Assim são as mulheres do grupo ArtPalha da comunidade Trapiá II, de Apodi, RN. Na região não tem mais trapiazeiro e nem outras árvores que deveriam existir, é o que denuncia a comunidade vizinha chamada de Queimadas: “Faziam muito desmatamento aqui e por isso o nome da comunidade ficou “Queimadas”. Em Queimadas, o grupo de Mulheres do Arte e Vida também produzem artesanato em palha para somar na renda.

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Ambas as comunidades sofrem com a escassez da água e contam com vastos carnaubais. E é das carnaubeiras que vêm as palhas do artesanato das mulheres que, organizadas, produzem, comercializam o artesanato que une feminismo, autonomia financeira e a luta por um mundo com igualdade.

O trabalho em grupo e o feminismo:

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Trindade, Marciane, Geiza, Maria Antônia, Joana e Francisca que é mais conhecida como Tica, tocam o ArtPalha desde 2002 quando, a partir das reuniões com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi, participaram de um curso para trabalhar a partir das potencialidades da comunidade: “Como aqui a gente tem pouca água e muita carnaúba e a gente já fazia chapéus, bolsas e vassouras de palha, fomos aproveitando as capacitações, aumentando a produção e a organização de mulheres. Em 2004, pelo Programa de Desenvolvimento Social – PDS, pudemos comprar material e equipamentos e construímos a Casa do Artesanato do nosso grupo de mulheres”.

Tica, do Art em palha, diz que: “fizemos muitas capacitações sobre preço, sobre as feiras, economia solidária, trocas de experiências, de produtos, sobre a convivência com o semiárido. Meu marido mesmo dizia que o nosso artesanato não ia dar em nada. Mas nosso artesanato e nossa união nos levam longe. E nós já exportamos produtos pra fora, até pra França”.

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Maria Vanderci conhecida como Xandoca, Maria Valdirene, Valda, dona Raimunda, Eunice, Girleide e Madalena são o Arte e Vida desde 2010. Através da assistência técnica do SEAPAC formaram o grupo de mulheres artesãs de Queimadas. Antes trabalhavam na sede do grupo de jovens e agora nas próprias casas, mas sempre trabalham juntas. Xandoca diz que “achava que era difícil, mas fui vendo e aprendi. Eu continuo fazendo arte em palha porque gosto e ajuda bastante na renda”. Maria Valdirene conta que “a gente trabalha nos quintais também mas é muito difícil. Se perenizasse o rio (Umari), a gente teria água pra plantar”.

Algo que se destaca visivelmente na comunidade de Queimadas é a praça colorida que dona Raimunda conta: “foi construída pelos moradores. Com a ajuda do padre Theodoro, não só a praça como a igreja e a sede da associação daqui também”.

Sobre o modo de trabalho dos grupos, Tica explica: “Ninguém faz nada sozinha. Um chapéu desses passa pelas mãos de tudinha. A gente trabalha numa dinâmica de unidade e divisão de tarefas”. E continua: “com o grupo de mulheres, aprendemos a ter confiança nas companheiras e sobre direitos iguais: quando a gente vai pro roçado não é ajuda, é trabalho, é ser agricultora, por exemplo. A gente aprendeu a se libertar, a não ser só dona de casa”. Ao que Xandoca completa: “Quando a gente está juntas é uma terapia. Nosso grupo de mulheres é uma escola melhor do que tá sentada na sala de aula”.

Carnaubeiras para quem?

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 A carnaubeira é uma espécie típica do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, que aparece em terrenos alagáveis ou agrupa-se nas várzeas de rios. Como tudo dessa palmeira pode ser aproveitado (tronco, folhas, fruto, palmito, raízes e as sementes), é conhecida como “árvore da providência”. O mais importante fator de renda para os extrativistas é a cera extraída das folhas, que é utilizada na fabricação de cosméticos, ceras industriais e domésticas, graxas, lubrificantes, discos, filmes fotográficos, papel carbono e outras aplicações.

A colheita da palha que é feita uma vez por ano, nos meses de outubro, novembro e dezembro, acontece em carnaubeiras dentro de terrenos privados: “a gente faz uma troca com os donos dos terrenos: tiramos as palhas e devolvemos pra eles o pó”. Para isso, as mulheres precisam sair de casa por volta das 4h da madrugada e ter todo o cuidado para não perder o pó.

Nas regiões de Tocantins, Pará, Piauí e Maranhão, as quebradeiras de coco de babaçu precisam se sujeitar a muitas adversidades para ter o direito de quebrar coco. A realidade das artesãs de Apodi não é diferente. Para ter as folhas de carnaúbas, as mulheres acabam se responsabilizando por um serviço a mais: “A gente não tem como comprar com dinheiro, né? Então a gente compra com trabalho juntando o pó das palhas e devolvendo pro dono”. As quebradeiras lutam pelo livre acesso aos babaçuais, mas a discussão do livre acesso às carnaubeiras ainda não chegou pela região. Assim como as mulheres avançaram na auto-organização e na autonomia, é preciso avançar na luta contra a exploração de seu trabalho e de suas vidas.

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