Centro feminista 8 de março e a ASA por uma melhor convivência com o semiárido

Resistência, criatividade e perseverança. Conviver bem com o semiárido é saber driblar a escassez de recursos como a água e trabalhar tudo que a terra pode dar.
O centro Feminista 8 de Março, com vasta experiência no trabalho de geração de renda e organização de mulheres rurais nos territórios do Rio Grande do Norte, em parceria com a Articulação do Semiárido, ASA, entidade referência na defesa do bem viver no semiárido brasileiro, está executando o programa Uma terra e Duas águas, P1+2, uma das ações do Programa de Formação e Mobilização Social para Convivência com o Semiárido.
Com o financiamento do BNDES, o objetivo do programa é fomentar a construção de processos participativos de desenvolvimento rural no Semiárido brasileiro e promover a soberania, a segurança alimentar e nutricional e a geração de emprego e renda às famílias agricultoras, através do acesso e manejo sustentáveis da terra e da água para produção de alimentos.
Na cidade de Itaú, o CF8 iniciou os trabalhos pelo P.A Paraná, atingindo 71 beneficiários cadastrados que já participaram dos cursos de capacitação e estão construindo as suas cisternas. No total, serão 320, nesta primeira etapa, tecnologias sociais de convivência com o semiárido potiguar para famílias agricultoras dos municípios de Itaú, Rodolfo Fernandes e Tabuleiro Grande.
As cisternas:
A cisterna é uma tecnologia simples, de baixo custo e adaptável a qualquer região. De formato cilíndrico, coberta e semienterrada, a cisterna funciona com o auxílio de uma tecnologia de captação de água para poder armazená-la.
O programa P1+2 decorre do projeto Um milhão de Cisternas, também da ASA, que consiste na captação da água das chuvas através de calhas instaladas nos telhados das casas. O reservatório da cisterna do P1MC tem capacidade para armazenar até 16 mil litros de água, quantidade suficiente para uma família de 5 pessoas beber e cozinhar, por um período de 6 a 8 meses.
Já no P1+2, as cisternas podem ser cisternas de placas e calçadão, barragem subterrânea, barreiro de trincheira e cisterna enxurrada, com a capacidade de armazenar até 52.000 litros, a fim de garantir água para a produção de alimentos e criação de pequenos animais durante o período de estiagem.
Sobre as cisternas do P1+2, Maria das Graças, do P.A. Paraná, Itaú, é quem diz: “Se as cisternas melhoram nossa vida? Ave Maria! Melhora demais. A gente ter água pra beber, tomar banho, já é bom. E com essa cisterna maior, a gente pode plantar, criar, melhor ainda!”
Capacitação para aproveitamento da água

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Depois de reunir a comunidade, levantar o interesse pelo programa e cadastrar beneficiados, são realizadas capacitações para o gerenciamento da água acumulada pela cisterna. O primeiro momento de capacitação foi o GAPA – Gerenciamento de água para a produção de alimentos. O curso foi ministrado na segunda quinzena de fevereiro, incluindo uma parte prática através de visitas aos quintais para detectar aspectos do gerenciamento da terra e da água.
Depois do GAPA, a segunda semana de março começou com as atividades de capacitação do Sistema Simplificado do Manejamento de Água, SISMA. Durante três dias, os beneficiados fizeram o curso colocando em prática técnicas que vão ajudar no aproveitamento da água das cisternas que estão sendo construídas. Cleiniane de Sousa, agrônoma facilitadora desta etapa, explica que: “as tecnologias apresentadas no curso são práticas simples mas que fazem toda a diferença na economia da água”.
Uma das técnicas apresentadas aos agricultores são a irrigação por gotejamento (feito com garrafa pet), o canteiro econômico, combate às pragas com extrato natural e o composto orgânico. Prestando bem atenção às explicações, João Ferreira, agricultor do P.A Paraná, Itaú, confirma a eficiência do extrato natural no combate das pragas: “o remédio é esse aí! Vai gastar dinheiro e arriscar a vida com veneno se quiser”.
Para fazer o canteiro econômico, todo mundo pôs a mão na terra misturando o composto orgânico e construindo a tecnologia para melhor aproveitamento da água nos períodos de estiagem. Josefa Ferreira, olhando atentamente o processo de construção do canteiro: “Eu tô prestando bem atenção e tô vendo que é fácil de fazer. Fácil e barato. Só preciamos comprar lona, cano e dá pra plantar de tudo… até cenoura e batata sem gastar muita água”.

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Mulheres e o semiárido, o desafio de construir as cisternas

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O treinamento para a construção de cisternas do P1+2 do CF8, aconteceu no período (xx), foi facilitado por Osnildo Pinheiro, com mais de 16 anos de experiência neste ramo, e contou com a participação de 17 homens e de 10 mulheres. Sim. Mulheres recebendo e também construindo cisternas.
A rotina de acordar às 5h e encarar um dia de sol, poeira, manejamento da massa do cimento e armações de ferro durante 9 dias foi encarada com muita garra e trabalho. Ismênia Marília, do P.A Maurício de Oliveira, Assu, sobre a experiência no curso de cisterneira diz que “no início foi bastante difícil porque nunca tinha feito isso antes. Mas ver a cisterna pronta foi muito gratificante. Vi que sou capaz disso e de muito mais”. E continua: “No começo, os homens desconfiaram perguntando se a gente dava conta. No fim, eles ficaram impressionados e a gente foi respeitada”.
Derrubando o senso comum da sociedade, Ana Maria, do P.A Maurício de Oliveira, Assu, diz que nunca gostou de cozinhar ou de ponto cruz: “com o trabalho barçal me identifico mais. Colher de pedreiro é melhor do que colher de pau”. E Maria da Conceição Gomes, também do P.A. Maurício de Oliveira, conta que o pai era pedreiro e que ela sempre quis fazer esse serviço, mas que nunca deixaram. E que o conhecimento e o desafio enfrentado na construção das cisternas eram uma vitória para ela.
As cisternas são construídas por duplas. Evenir, cisterneira formada neste treinamento, tem como dupla outra mulher e sobe isso, arremata: “o trabalho é cansativo, mas não é nada que não façamos bem feito. Vamos prosseguir e quebrar os preconceitos”.

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