Intercâmbio Chapada do Apodi: a luta pela vida

Imagem

Junto ao Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi, diversos movimentos sociais organizaram o intercâmbio Chapada do Apodi RN-CE que contou com a participação de quase 100 pessoas ontem, dia 10. Durante todo o dia, agricultores e agricultores, estudantes universitários, professores e professoras do município de Apodi (RN) Tabuleiro Grande (RN) e Limoeiro do Norte e Fortaleza (CE) fizeram mais do que conhecer experiências, compartilharam lutas e esperanças de vida digna no semiárido.

Depois da participação dos agricultores e agricultoras de Apodi (RN) na semana Zé Maria do Tomé que aconteceu em Limoeiro do Norte (CE), em abril deste ano, surgiu a ideia de realizar intercâmbios entre as cidades/estados da Chapada para fortalecer o diálogo e as lutas contra os projetos de perímetros irrigados que violam os direitos dos trabalhadores, prejudicam o os recursos naturais e o desenvolvimento da agricultura familiar da região. Maiana Maia, do Movimento 21, explica que “com esta luta unificada, construímos uma rede de aprendizagem muito grande. O RN foi ao Ceará, onde o perímetro irrigado foi implementado, para comprovar uma experiência que não quer pra si. No contexto da resistência, conhecer a situação atual da parte da Chapada do Ceará, fez com que os agricultores que eram a favor, se tornarem contra o projeto. Para nós, conhecer Apodi do RN é reativar os saberes de produção sem veneno, diversificada, pela soberania alimentar como uma forma de se recuperar dos maus tratos que o agronegócio nos impôs”.

O intercâmbio faz parte da programação de atividades do lançamento do Dossiê Perímetros Irrigados e a expansão do agronegócio no campo: quatro décadas de violação de direitos no semiárido, que será lançado hoje às 9h no STTR de Apodi. O dossiê organizado por grupos de pesquisa da Universidade Estadual do Ceará, Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, articulação de movimentos sociais do campo, sindicatos de trabalhadores e pastorais sociais consiste em aproximadamente 600 páginas que revelam os impactos negativos sofridos pelas comunidades desapropriadas e pelas que ainda convivem no entorno desses grandes projetos de irrigação nas regiões do: Jaguaribe-Apodi (CE), Tabuleiro de Russas (CE), Baixo Acaraú (CE), Baixo Assú (RN) e Santa Cruz do Apodi (RN).

Imagem

O pé de salada

A casa de seu João de Deus e dona Maria Ivonete, mais conhecida como Neta de Sidô como é conhecida, agricultores do Sítio Carpina, foi a primeira parada do intercâmbio Chapada do Apodi. Agricultura é o ‘forte’ da família. Seu João, dona Neta, filhos e netos, num total de dez pessoas, tiram o sustento com agricultura familiar e com a venda do beju e da tapioca mais famosos do Apodi. Além das música e da alegria, os intercambistas foram recebidos com um farto café da manhã cheio de frutas diversas e comidas típicas, tudo fruto do seu quintal e da casa de farinha da família de João de Deus e dona Neta.

Seu João começa falando sobre a importância da agricultura em sua vida: “Tô com 60 anos de idade e nunca passei fome porque sempre fui agricultor e nunca abandonei o ofício e a terra, nem na seca de 1993. Nesse meu 1 hectare, eu produzo de tudo e a casa de farinha me ajuda muito na renda também. Eu penso que se cada um tivesse água e terra abundante nossa gente não teria que ir pra cidade”. Plantações de banana, coco, beringela, laranja, limão, manga, carambola, sapoti, acerola, manga, goiaba, milho, feijão, mandioca, e as pessoas até se perdem no meio de tanta diversidade. Agricultores a agricultoras aproveitam o momento para fazer muitas perguntas e para colher mudas e sementes das plantas do quintal dos anfitriões para levar pras suas casas. Dona Neta diz que é como se tivesse “um pé de salada no quintal”, e acrescenta: “pode pegar pra fazer salada nos quintais de vocês também. Só não bote adubo químico e veneno, só defensivo natural, que dá tudo certo!”.

A luta pela terra

Saindo da casa de seu João, a muito contragosto, pois todo mundo queria ficar por lá, o intercâmbio segue para o P.A Laje do Meio, onde Talita Sonaly, 18 anos, pesquisadora popular local, nos apresentou um vídeo que ela e outras pesquisadoras fizeram sobre a história de sua comunidade desde quando os agricultores eram meeiros, vivendo em péssima condições de trabalho e exploração, passando pela conquista das terras, por meio da organização dos agricultores por meio da reforma agrária, na década de 90, o desenvolvimento da agricultura familiar e agroecológica até o momento em que chamam de: “a reforma agrária ao contrário” ou “projeto da morte” que é o projeto de Perímetro Irrigado da Chapada do Apodi.

Imagem

Projeto da morte X Projeto da vida

Depois de tantas lutas e conquistas, o projeto do Perímetro Irrigado de Santa Cruz surge como uma grande ameaça à vida dos agricultores e agricultoras locais. Além da retirada do povo do local, a degradação do solo e da água, o projeto prevê entregar as terras para empresas do agronegócio, colocando em risco a vida dos trabalhadores e trabalhadoras que vão trabalhar diretamente com os agrotóxicos como a população, de um modo geral, que consumirá alimentos envenenados.

A partir do diálogo com a população das regiões afetadas, a pesquisa do dossiê enfatiza a violação de alguns dos direitos básicos: à terra, à participação política, à água, ao meio ambiente, ao trabalho digno e à saúde. Em relação a esta última, o documento traz uma denúncia grave: devido ao uso abusivo de agrotóxicos, a taxa de mortalidade por câncer entre as comunidades que vivem no entorno das plantações do agronegócio é 38% maior do que nos locais onde há apenas agricultura familiar. Sendo assim, um projeto de morte.

Uma das pesquisadoras organizadoras do Dossiê Perímetros Irrigados da Chapada do Apodi, que abrange cidades potiguares e cearenses, estava presente no intercâmbio, traz a realidade da Chapada do lado cearense (Limoeiro e Russas) onde o projeto já foi implementado e questiona: “Nós temos hoje 38 perímetros irrigados no Brasil, e esse número será expandido enormemente. Os pesquisadores que já vinham estudando a questão e conhecem seus impactos sobre a população ficaram muito assustados. Se em um pedaço, como o Jaguaribe-Apodi, a gente já vê um estrago enorme, imagina em 400 mil hectares?”

Estando nas terras da Chapada, os agricultores junto ao sindicato, ONGs e movimentos sociais, desenvolveram formas de viver dignamente na região – mesmo com a escassez da água. Nilton Júnior, da CPT, esclarece que depois da conquista da terra, dentre as estratégias para melhor convivência com o semiárido estão o manejo da caatinga, o beneficiamento das frutas, a caprinocultura, produção de mel e uma série de arranjos produtivos somados a reuso de águas e trabalho coletivo que fazem o povo prosperar.

No P.A Laje do Meio, intercambistas se dividiram para conhecer as experiências de beneficiamento das frutas (as polpas), a casa de produção do mel e a área de remanejamento da caatinga. Todos ficaram admirados com tamanha vida e prosperidade que existe na região. Fruto de um trabalho coletivo e consciente de respeito à terra, à água e às próprias pessoas. Um projeto de vida.

Imagem

A luta não está perdida

O Ministro Gilberto Carvalho, disse no III Encontro Nacional de Agroecologia que a luta do Apodi está fazendo o governo repensar a questão dos perímetros irrigados. E Edilson Neto, presidente do STTR Apodi, apontou esta fala como sinal de que a luta pela autonomia dos povos do campo contra esses grandes projetos não é em vão, e fala emocionado: “Muita coisa foi, está sendo feita muita ainda se fará. Temos muitos aliados e temos vida. Enquanto tivermos vida não podemos desistir. A luta não está perdida”.

Reginaldo Silva do MST Ceará, intercambista, fala que “este projeto é um só que vem oprimindo a classe trabalhadora. Mas nossa força é o povo organizado que faz a diferença. Vamos mostrar a sociedade que esse desenvolvimento não é pra nós, povo! E que nós sabemos como fazer, Apodi ta nos mostrando isso.”.

Por fim, Raquel Rigotto agradeceu a oportunidade de troca de experiência: “Somos um grupo da Universidade Federal do Ceará e passamos 4 anos estudando a situação da Chapada lá: o veneno, a situação dos homens que vem sem as famílias e daí o aumento da prostituição, do tráfico de drogas, a marginalização dos trabalhadores do campo, as doenças causadas pelos agrotóxicos. E as pessoas nos dizem: mas é assim, mesmo! Como fazer prosperar sem veneno? Vocês dão essa resposta. Obrigada! É possível viver e produzir sem agrotóxico. Vocês são uma verdadeira universidade para nós”.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s