A produção de doces e auto-organização que banham os sonhos de igualdade das Mulheres de Rio Novo

*Fotos de Wigna Ribeiro

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“Teve uma enchente pelos anos de 1800 e o rio que tinha aqui perto torou pra cá porque os homens tinham arrancado as plantas nativas, as salsas, e aí se formou um rio novo” é o que diz Maria Genilda, agricultora, sobre o nome da comunidade. E é nesta comunidade da zona rural de Apodi, RN, que o grupo de mulheres de Rio Novo, assim como um braço de rio, se formou para transformar suas vidas através do cultivo de bananas e produção de doces.

Nos anos 2000 começaram as reuniões do grupo de jovens Sagrado Coração de Jesus no prédio da escola da comunidade. Com o incentivo e apoio do Padre Theodoro, o grupo de jovens conseguiu construir sua sede própria. Nos anos seguintes o grupo se dedicou à realização de festas religiosas, construiu a quadra esportiva de Rio Novo, já teve a sede funcionando como telecentro capacitando jovens da comunidade e em 2012, o grupo se transforma em associação e, a partir da associação, as mulheres passaram a se organizar para acessar programas e projetos sociais.

No ano de 2012, a Associação Comunitária de Rio Novo elaborou um projeto para o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA na modalidade doação simultânea, em que durante seis meses as mulheres produziram e ofertaram 03 tipos de doces a partir de frutas típicas da região e matéria-prima local sendo, então, o leite, o mamão e a banana.

A estiagem prolongada que causou uma significativa diminuição da produção de frutas fez cessar temporariamente a atividade de plantio. E “como o projeto exigia que para a produção do doce, a matéria-prima fosse da comunidade e nossos quintais eram muito pequenos para a demanda, nós, eu e as meninas, assumimos esse desafio de cultivar banana em um terreno emprestado e produzir o doce”, diz Maria Dalvaneide que continua explicando: “Mas o projeto dura um certo tempo e para. Quando produzimos pra CONAB, a gente já tem venda garantida. Agora, não. Agora temos que vender por nós mesmas. E a gente tinha duas escolhas: continuar ou acabar com o nosso trabalho. E mesmo com toda dificuldade e falta de dinheiro pra investir, decidimos continuar”.

E assim, se constituiu o Grupo produtivo composto por seis mulheres: Carmem Gomes, 44; Maria Elenita, 49; Maria Genilda, 52; Patrícia Luiza, 37; Maria Dalvaneide, 35 e Gracilene Nascimento, 26. Elas acessaram o crédito PRONAF B em 2013 e implementaram um pomar com 2 hectares de banana (aquisição de mudas e plantio, instalação do sistema de irrigação por gotejamento e tratos culturais) em uma área cedida na comunidade por um parente.

Mesmo com toda a dedicação das mulheres, os recursos foram insuficientes para a plena execução do projeto desejado. Em 2013, chegando à comunidade de Rio Novo para a execução do ATER, a equipe do Centro Feminista se deparou com esta realidade e, em parceria com as mulheres, organizou o projeto coletivo. Com os recursos do ATER Mulheres, foi possível realizar a troca de equipamentos, promovendo a continuidade e em busca da sustentabilidade do trabalho das mulheres.

São dois hectares irrigados por gotejamento, tipo de irrigação adequada para as condições climáticas e hídricas. E na produção, os tratos culturais e controle de insetos, são feitos em bases agroecológicas e em conformidade com os princípios da política de ATER. As atividades produtivas são diversificadas com a produção nos quintais com a criação de galinha caipira, ovino e melhoria na distribuição de água no quintal somadas à produção coletiva.

O trabalho no bananal é encarado pelas mulheres com muito afinco, traz bons resultados: “tô me sentindo realizada. Melhorou a minha renda, a gente coloca as contas em dia, compra material escolar das crianças, mais comida boa em casa, tudo fruto do meu trabalho. Tudo melhorou” diz Maria Elenita. Ao que completa Carmem: “Sem falar que é um sonho pra nós que somos domésticas e agricultoras, poder melhorar nossa casa, botar cerâmica e ter um lazer, né?”. Além disso, o desenvolvimento é também uma forma de contribuir com a segurança e soberania alimentar, já que os produtos são destinados tanto para comercialização quanto para o autoconsumo.

A partir da realização da experiência, as mulheres apontam diversos resultados como o fortalecimento da auto-organização do grupo e a solidariedade entre elas, visto que as mulheres se reúnem diariamente para conversar, realizar suas tarefas e pensar sobre outras questões que são importantes para elas, gerando também maior visibilidade do trabalho das mulheres na comunidade.

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A comercialização é vista como um resultado muito importante, mas a auto-organização desembocando na ampliação da autonomia econômica das mulheres e elevação da autoestima por se sentirem capazes de trabalhar e ter seu próprio dinheiro, e os sonhos que alimentam juntas de construir a fábrica de doces, de uma vida sem violência contra as mulheres e de igualdade entre as pessoas são as águas que banham, feito rio, a vida de cada uma e da comunidade.

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