Feminismo para superar a violência e lutar por direitos: a história de Tatiana Muniz e os frutos da auto organização das mulheres de Tibau

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Auto organizadas, as mulheres de Tibau – RN protagonizam a luta pelas terras em que vivem, pelo direito de uma vida sem violência e direito à cidade.  Entre as lutadoras tibauenses está Tatiana Muniz com sua história de superação da violência e as batalhas pelos direitos das mulheres.

Tatiana, a superação da violência e o despertar da luta

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Tatiana Muniz mora na comunidade de Lagoa de Salsa. É pescadora e militante da Marcha Mundial das Mulheres. Nasceu em Guamaré mas a sua mãe biológica a entregou para uma família de Macau quando ela tinha 4 anos. Com uma infância sofrida junto aos pais adotivos, Tatiana conta que era criada como “empregada da pesca e nos afazeres domésticos” e que vivia trancada dentro de casa até ser expulsa aos 14 anos quando o pai a viu namorando na praça: “eu achava que se me casasse ia ter liberdade e fui morar com o rapaz de 17 anos que era meu namorado na casa de sua mãe. Depois que tivemos a primeira filha, fomos morar sozinhos em Porto do Mangue. Foi aí que começou a violência física. Tive mais duas filhas com ele. Mas sempre que bebia, queria me bater. Certo dia, meia-noite, na praia, ele me perseguiu, me deixou nua e me espancou. Na briga, eu consegui cravar uma faca na perna dele e fugir. Ou não estaria viva pra contar”.

Com suas três crianças, sem dinheiro, Tatiana se mudou para Areia Branca e lá mudou de nome – por medo de perseguição –  e conseguiu emprego. Em meados de 1995, se mudou para Tibau e se dedicou à pesca e, através de projetos do Centro Feminista 8 de Março e da Marcha Mundial das Mulheres, Tatiana passou a trabalhar de forma coletiva junto à cooperativa de beneficiamento do pescado da cidade e, desde então, tem se fortalecido enquanto mulher e liderança da sua comunidade.”.

Em defesa das terras e pelo direito à cidade:

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Atualmente, Tatiana mora na comunidade de Lagoa de Salsa que, assim como Vila Nova I, é território em disputa. As mais de 200 famílias que vivem nessas comunidades lutam contra a ação de reintegração de posse que pode expulsá-las das terras nas quais vivem e produzem desde 1996.

Ambos as terras não possuíam nenhuma documentação e em 2005, depois de ter sido esvaziada a convocação pública para apresentação de propriedade, e ser concedido os Títulos de Terra aos moradores pelo Governo do Estado da época, uma pessoa conhecida por Nóbrega, que diz ser o proprietário, entrou com ação de reintegração de posse, que entres idas e vindas, chegou a ser concedida por um período e negada depois de muitas batalhas.

Tatiana Muniz explica que: “a partir da nossa organização, com a Marcha Mundial das Mulheres, nós fomos conquistando voz e voto nas associações, sindicatos e na luta pela nossa autonomia e nossos territórios”. Sobre as diversas ações que realizaram, relembra: “já nos mobilizamos em frente ao fórum onde a juíza ia despachar a reintegração de posse em 2012 e recuou, já participamos e construímos a Caravana Agroecológica e Cultural de Apodi em 2013, em que demos visibilidade à nossa situação a nível regional e nacional, realizamos mobilizações no 8 de março, participamos das comissões de luta pelas nossas terras e levamos nosso clamor para Brasília na Marcha das Margaridas em agosto de 2015 junto a cem mil mulheres. Esse ano mesmo fizemos uma audiência pública na câmara municipal e assim vamos levando.”, é o que diz Tatiana Muniz.

“Além de lutar por nossas terras, lutamos pelas nossas vidas sem violência, também para termos direito a circular por todos os lugares sem assédios machistas pra que a gente viva sem medo”, explica Tatiana sobre as atividades desenvolvidas com e pelas mulheres tibauenses através do projeto Cidades Seguras para as Mulheres. Com o apoio da ActionAid em parceria com o Centro Feminista, o grupo de mulheres de Tibau realiza diversas mobilizações como blitz feminista, atividades de formação, batucada e panfletagem com o objetivo de chamar a atenção das autoridades para os problemas que facilitam as violências contra a mulher na cidade como ruas escuras, trechos esburacados e a importância da conscientização.

“No momento atual de golpe e retrocessos sociais que estamos vivendo, nossa saída é lutar juntas!” diz Tatiana que explica de onde veio e vem a força para a superação da violência e para tanta luta a partir da auto organização das mulheres: “depois que conheci a Marcha e o CF8, conheci outra vida, outras mulheres que passaram pelo mesmo problema que eu tinha passado. E foi nesse movimento que fui me reconhecendo, assumindo minha identidade, fui perdendo o medo e ganhando autoestima. Hoje eu uso o meu nome: Tatiana. E com minhas companheiras sou mais forte, fazemos fortes umas às outras para lutar todos os dias pelos nossos direitos das mulheres e do povo de poder viver em suas terras e ter uma vida digna.”

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