Boas práticas de Assitência Técnica Rural para igualdade e autonomia das Mulheres

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Com o objetivo de construir resistências e alternativas, a assistência técnica rural desenvolvida pelo Centro Feminista 8 de Março vem acumulando práticas para mudar a vida das mulheres. Como reconhecimento de boas práticas da política pública de Assistência Técnica Rural – ATER Mulheres foram selecioandas nacionalmente as experiências do CF8 no tocante à recreação infantil e o projeto de produção coletiva de mulheres de Rio Novo.

O histórico do CF8 na assessoria aos grupos e assistência técnica às mulheres rurais vem antes mesmo das políticas governamentais. Em 2004, através de convênios, o Centro fez a escolha por desenvolver assistência técnica voltada para as mulheres e com a nova lei de ATER Mulheres em 2008, a prática vem se estendendo às regiões do Oeste Potiguar, Seridó e Mato Grande.

Nesta semana, representantes da equipe do CF8 e agricultoras participam de um seminário nacional de ATER para compartilhar a prática da instituição.

Recreação para a igualdade:

Brincadeiras de rodas, pintura, contagem de estórias, desenhos, confecção de cartazes. A recreação infantil através do ATER Mulheres/2013-2014 foi desenvolvida em cinco municípios: Apodi, Campo Grande, Caraúbas, Filipe Guerra e Itaú. Diante da necessidade de socializar o trabalho doméstico e do cuidado para que as mulheres rurais destinassem um maior tempo para o trabalho mercantil e ao mesmo tempo desconstruir uma lógica de que o tempo das mulheres é inesgotável e que devem em toda a sua vida ser responsável pelo trabalho doméstico e do cuidado.

De acordo com o diagnóstico de ATER realizado pelo CF8, em 2011, as mulheres com filhos com idade entre 0 e 07 anos exercem menos atividades produtivas do que as mulheres com filhos em idade escolar. E perceber-se que a falta de uma politica de creche para o rural altera o tempo das mulheres destinado à produção. Cuidar das crianças e participar das atividades ao mesmo tempo é muito difícil. uma realidade das mulheres rurais do semiárido.

Com base nas orientações e, sobretudo, no debate feito no CF8, a proposta de recreação infantil contempla três questões: a realidade das crianças rurais; uma recreação pautada na igualdade de meninos e meninas; e a sucessão rural. As brincadeiras trazem referências do que existe e da produção da comunidade, não realiza leituras de estórias de princesas ou príncipes encantados, não se separa brinquedos e brincadeiras a partir do gênero e nem com cores ou comportamento destinado para menino ou menina. E a partir de brincadeiras e narrativas infantis mostramos que o rural não é o atraso e nem o urbano o moderno, como aprendemos em outros espaços do cotidiano. Os debates foram realizados apresentando esses espaços com realidades diferentes, porém cada um com suas potencialidades e dificuldades. Para essa leitura contamos com os instrumentos metodológicos de arte-educação.

As políticas públicas que tornam possível o reconhecimento e valorização do trabalho das mulheres e a luta pela sua autonomia financeira, para funcionarem efetivamente, precisam dar o acesso e o apoio necessário para a socialização das tarefas domésticas e do cuidado pra que estas tarefas que as mulheres assumem sozinhas devido à divisão sexual desigual do trabalho, não impeçam que as mulheres possam participar e mudar sua realidade.

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Produção Coletiva para autonomia:

Em 2012, a Associação Comunitária de Rio Novo elaborou um projeto para o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA na modalidade doação simultânea, em que durante seis meses as mulheres produziram e ofertaram 03 tipos de doces a partir de frutas típicas da região e matéria-prima local sendo, então, o leite, o mamão e a banana.

A estiagem prolongada que causou uma significativa diminuição da produção de frutas fez cessar temporariamente a atividade de pantio. E “como o projeto exigia que para a produção do doce, a matéria-prima fosse da comunidade e nossos quintais eram muito pequenos para a demanda, nós, eu e as meninas, assumimos esse desafio de cultivar banana em um terreno emprestado e produzir o doce”, diz Maria Dalvaneide que continua explicando: “Mas o projeto dura um certo tempo e para. Quando produzimos pra CONAB, a gente já tem venda garantida. Agora, não. Agora temos que vender por nós mesmas. E a gente tinha duas escolhas: continuar ou acabar com o nosso trabalho. E mesmo com toda dificuldade e falta de dinheiro pra investir, decidimos continuar”.

E assim, se constituiu o Grupo produtivo composto por seis mulheres: Carmem Gomes, 44; Maria Elenita, 49; Maria Genilda, 52; Patrícia Luiza, 37; Maria Dalvaneide, 35 e Gracilene Nascimento, 26. Elas acessaram o crédito PRONAF B em 2013 e implementaram um pomar com 2 hectares de banana (aquisição de mudas e plantio, instalação do sistema de irrigação por gotejamento e tratos culturais) em uma área cedida na comunidade por um parente.

Mesmo com toda a dedicação das mulheres, os recursos foram insuficientes para a plena execução do projeto desejado. Em 2013, chegando à comunidade de Rio Novo para a execução do ATER, a equipe do CF8 se deparou com esta realidade e, em parceria com as mulheres, organizou o projeto coletivo. Com os recursos do ATER Mulheres, foi possível realizar a troca de equipamentos, promovendo a continuidade e em busca da sustentabilidade do trabalho das mulheres.

São dois hectares irrigados por gotejamento, tipo de irrigação adequada para as condições climáticas e hídricas. E na produção, os tratos culturais e controle de insetos, são feitos em bases agroecológicas e em conformidade com os princípios da política de ATER. As atividades produtivas são diversificadas com a produção nos quintais com a criação de galinha caipira, ovino e melhoria na distribuição de água no quintal somadas à produção coletiva.

O trabalho no bananal é encarado pelas mulheres com muito afinco, traz bons resultados: “tô me sentindo realizada. Melhorou a minha renda, a gente coloca as contas em dia, compra material escolar das crianças, mais comida boa em casa, tudo fruto do meu trabalho. Tudo melhorou” diz Maria Elenita. Ao que completa Carmem: “Sem falar que é um sonho pra nós que somos domésticas e agricultoras, poder melhorar nossa casa, botar cerâmica e ter um lazer, né?”. Além disso, o desenvolvimento é também uma forma de contribuir com a segurança e soberania alimentar, já que os produtos são destinados tanto para comercialização quanto para o autoconsumo.

A partir da realização da experiência, as mulheres apontam diversos resultados como o fortalecimento da auto-organização do grupo e a solidariedade entre elas, visto que as mulheres se reúnem diariamente para conversar, realizar suas tarefas e pensar sobre outras questões que são importantes para elas, gerando também maior visibilidade do trabalho das mulheres na comunidade.

A comercialização é vista como um resultado muito importante, atualmente o grupo comercializa em média 1.500 kg de banana in natura por semana. Mas a ampliação da autonomia econômica das mulheres e elevação da autoestima, por se sentirem capazes de trabalhar e ter seu próprio dinheiro, são o maior ganho desta prática.

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