Neguinha e a auto organização, agroecologia e convivência com o semiárido para vencer

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Eu tinha vergonha de me expor, de falar, até a gente ter capacitação, oportunidade pra gente falar e desenvolver”, é como se apresenta Francisca de Lourdes, 65 anos, mais conhecida como Neguinha, agricultora e apicultora do grupo de mulheres “Decididas a vencer”, do Assentamento Mulunguzinho, Mossoró, RN.

Neguinha foi uma das primeiras a chegar no assentamento, 26 anos atrás. Quando foi chamada para representar as mulheres do assentamento em um seminário organizado pelo sindicato da lavoura, Neguinha sentiu a necessidade de se organizar. Foi aí que convidou o Centro Feminista que, na época, era Centro da Mulher, para ir ao assentamento fazer uma reunião com as mulheres de lá: “sai de porta em porta da agrovila pra chamar pra reunião, 28 mulheres compareceram, e dessa reunião saiu o nome do grupo Decididas”.

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Ela conta como a auto organização mudou sua vida e história das mulheres do Mulunguzinho: “o Decididas a vencer começou em 96. De lá pra cá a gente passou a participar da Marcha, das reuniões fora do assentamento, e dentro também, dos movimentos de agroecologia, e já organizamos muita produção na horta coletiva, nos nossos quintais, no gold, agora tem as cisternas, e isso tudo porque a gente tem o grupo e o Centro Feminista com a gente”.

Uma das primeiras ações do Decididas a vencer foi de conseguir um lote para produção do grupo de mulheres. Em 98 começaram a produzir na terra. Neguinha conta que, na época, essa produção foi referência de organização e produção coletiva de mulheres “quando as mulheres plantam, elas mesmas têm que vender porque os homens não aceitam que a gente tenha o dinheiro. Se eu produzi, eu vou vender. Se eu sou capaz de produzir porque não de comercializar? Aprendemos isso na prática e repassamos em intercâmbios e outras reuniões que a gente ia pra falar da nossa experiência aqui”, ressalta.

Em 2002, após o roubo da fiação do poço de onde tiravam a água para as hortas coletivas, as decididas enfrentaram muitas dificuldades. Mesmo assim, não deixaram de produzir e se organizar.

Em 2016, através do projeto Redesenhando a vida, transformando o semiárido, executado pelo Centro Feminista 8 de Março e co-financiado pela União Europeia, as mulheres do Dedicididas a Vencer fazem o cultivo do milho de semente crioula: “Essa produção no lote faz a gente retomar os trabalhos juntas. E o melhor de trabalhar juntas é que a gente vai fortalecendo essa organização de nós, mulheres”, diz Neguinha.

Além do cultivo do milho, as decididas criam abelhas, organizam poupança e empréstimos coletivos por meio do método gold, trabalham em seus quintais produtivos e comercializarem sua produção na Rede Xique Xique de economia solidária.

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O trabalho dos quintais das mulheres será potencializado com o Programa 1 Terra, 2 águas, P1+2, da Articulação Semiárido Brasileiro, ASA, também executado pelo CF8, com apoio do BNDES e Fundação do Banco do Brasil. Só no Mulungunzinho foram 28 cisternas construídas. Animada, Neguinha diz que: “é dessa forma de garantir de guardar a água da chuva que vamos melhorar nossa produção”.

Assim, unindo auto organização, agroecologia e convivência com o semiárido na prática, Neguinha mostra, com sua história e a do grupo, como as mulheres podem se decidir para vencer as dificuldades e transformar suas realidades.

 

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